Abelhas
Indígenas
Como
já foi dito, as abelhas Apis não são nativas da América. As abelhas
sociais nativas, comumente chamadas indígenas, são as mamangavas,
do gênero Bom-bus, e as ditas sem ferrão, pertencentes à tribo
Meliponini.
* * * As
mamangavas
As
mamangavas podem ser encontradas até nas regiões mais frias do
mundo. Dentre as 200 espécies conhecidas, 6
foram descritas no Brasil. São abelhas grandes e importantes
agentes polinizadores. Por exemplo, são as únicas capazes de polinizar
o maracujá. No hemisfério norte polinizam principalmente o trevo
e a alfafa. Convém lembrar que as abelhas em geral não suportam
o frio. As abelhas Apis são as que mais conseguiram se expandir
pelo globo terrestre, mas mesmo nas regiões mais frias onde sobrevivem
podem ficar inativas até por seis meses durante o ano, devido
ao frio. Daí a importância das mamangavas, que hibernam por menor
período.
As rainhas, representantes da casta reprodutiva, fundam seus ninhos
sozinhas. Geralmente aproveitam-se de ninhos abandonados de roedores,
fendas de muros ou pedras, ou amontoados de palha junto ao chão.
O principal material usado para o ninho é a cera, fabricada pela
rainha nas glândulas localizadas no abdômen. As rainhas de outras
espécies sociais geralmente não são capazes de produzir cera.
Um pote para armazenar mel e uma célula de cria iniciam o novo
ninho. A rai-nha põe ovos nas células de cria, alimenta as larvas
que nascem, coleta o pólen, o néc-tar e mantém o ninho. Logo ao
nascer, as primeiras operárias passam a auxiliar a mãe nos trabalhos,
seguindo uma tabela de tarefas de acordo com a idade, como nas
outras espécies de abelhas sociais. As operárias e a rainha possuem
um ferrão muito potente usado na defesa, que pode ser usado várias
vezes seguidas sem prejuízo para as abelhas.
A partir de um certo momento a rainha começa a por ovos não fecundados,
que darão origem a machos, enquanto que algumas larvas de fêmeas
terão sua alimentação reforçada e se tornarão adultas férteis.
Então estas novas rainhas serão fecundadas por machos - somente
uma vez na vida - e fundarão novos ninhos. Às vezes pode acontecer
de rainhas fecundadas retornarem para o ninho de origem e ali
conviverem com a mãe. Neste caso estas famílias tornam-se políginas,
isto é, possuem mais de uma rainha.
*
* * Os
meliponídeos
Os
meliponídeos, como são chamadas as espécies da tribo Meliponini,
são abelhas sociais encontradas tipicamente nas regiões tropicais
e subtropicais do planeta, e são caracterizadas por apresentarem
um ferrão atrofiado que não serve para defesa; daí a designação
sem ferrão. Os estudos científicos sobre essas abelhas são recentes
e pouco desenvolvidos, ao contrário das Apis. Inclusive há controvérsias
sobre como classificá-las zoologicamente.
No esquema da página 2 vê-se uma das classificações adotadas.
A SUPERFAMÍLIA Meliponinae é dividida em três TRIBOS: Trigonini,
Meliponini, Lestrimellitini. Das Lestrimellitini, grupo de abelhas
sociais parasitas, foi estudado o suficiente.
Mais adiante serão vistas as diferenças básicas entre as outras
tribos.
Estas abelhinhas são bastante conhecidas pelos seus nomes populares.
Jataí, mirim-preguiça, lambe-olhos, moça branca, irapuá, etc.,
são exemplos de trigonas; mandaçaia, uruçu, jandaíra, etc., são
exemplos de melíponas. Estes nomes mudam de região para região
e, às vezes, uma mesma espécie é conhecida por nomes diferentes
em vários locais do país. No Brasil são conhecidas cerca de 200
espécies de meliponídeos, com tamanho que varia de dois milímetros
(lambe-olhos) a dois centímetros (tiúba; uruçu do litoral baiano).
Na região sudeste uma das mais comuns é a jataí, facilmente reconhecível
pela entrada que constrói: um tubinho claro de cera que parece
um dedinho. Aliás, uma das maneiras mais simples e segura de reconhecer
as espécies de meliponídeos é pela forma da entrada
do ninho. Entre os meliponídeos há uma grande variedade
de comportamentos e hábitos próprios de cada espécie, porém em
linhas gerais o padrão seguido pela Apis repete-se aqui. As maiores
diferenças estão nos hábitos de nidificação.
Os meliponídeos possuem hábitos de nidificação variados. Geralmente
cada espécie tem preferências bem marcadas. A grande maioria estabelece
suas colônias em ocos de árvores, apresentando preferências em
relação à altura e, às vezes, em relação à espécie de árvore.
Por exemplo, a guaraipo faz seus ninhos junto às raízes das árvores,
ou na parte do tronco rente ao chão, e por isto é às vezes chamada
de pé-de-pau. Na Bahia, encontram-se freqüentemente jataís, moça
branca e mirim em coqueiros. Vá-rias espécies também adaptam-se
aos ocos encontrados nas casas dos homens ou em paredes, entre
tijolos, etc. Há aquelas que fazem seus ninhos subterrâneos, como
a jataí da terra, a mombuca e outras. A profundidade do ninho
varia de acordo com a espécie, tipo de terreno e sistema ecológico
da região, podendo ir de 30 centímetros a 2 metros.
Outras abelhas sem ferrão não ficam na dependência de ocos, construindo
ninhos aéreos. Os ninhos são apoiados numa superfície resistente,
ao ar livre, geralmente com uma parede de proteção. O exemplo
mais comum é a irapuá, um tipo de abelha daninha da qual falaremos
mais adiante.
Existem outras que constroem seus ninhos dentro de outros ninhos
de insetos sociais, aproveitando seu calor e umidade. É o caso
de espécies que nidificam dentro de cupinzeiros ou de ninhos de
formigas.
O material básico usado na construção dos ninhos é o cerume, uma
mistura de cera e própolis. A cera produzida pelas operárias é
armazenada em pequenos depósitos em locais variados das colônias,
geralmente os mais aquecidos. Esta cera é continuamente trabalhada
pelas abelhas que a misturam ao própolis, formando o cerume. O
própolis, fabricado pelas abelhas à partir de resinas vegetais,
também é armazenado em potes e tem funções e propriedades análogas
ao própolis das Apis, embora seja mais viscoso. Algumas espécies
usam cera pura para as construções. Há ainda espécies que usam
barro e excremento de mamíferos para revestimentos externos ou
divisões inter-nas. Certas trigonas, como a irapuá, utilizam pedaços
de flores e de folhas cortados de plantas vivas como material
de construção. Estas abelhas têm predileção particular por brotos
de cítricos.
As entradas dos ninhos têm formas diferentes, de acordo com a
espécie. As melíponas fazem suas entradas de barro ou de geoprópolis
(barro misturado com própolis), geralmente sob a forma de cratera
da qual se irradiam sulcos e cristas alternadas. No centro fica
o orifício usado pelas abelhas para entrar e sair do ninho, uma
de cada vez.
Entre as trigonas os tipos de entrada variam muito. Diversas espécies
constroem tubos de cerume, ou mesmo de cera pura, com formas variadas.
Uma abelha cu-riosa é boca de sapo, que tem este nome justamente
porque sua entrada feita de barro possui uma forma que lembra
uma boca de sapo.
Algumas espécies podem fechar as entradas à noite, mas a maioria
dos meliponídeos mantêm-na sempre ou quase sempre abertas. No
interior do ninho a entrada dá lugar a um túnel de ingresso, mais
ou menos longo, que geralmente desemboca na região dos favos de
cria.
As células de cria podem estar dispostas de várias maneiras. Às
vezes são simples cachos de células mal ligadas uma às outras,
como na moça branca e na lambe olhos. Na maior parte das vezes
as células estão justapostas, formando favos compactos. Nestes
as paredes de uma célula fazem parte também das paredes das células
vizinhas. Os favos compactos podem ter a forma de discos horizontais;
outras vezes são helicoidais. Existem tipos de transição entre
os favos compactos e os cachos de células. Nos meliponídeos, ao
contrário das Apis, as células de cria, e portanto os favos também,
nunca são permanentes. Depois que os adultos emergem, as células
são demolidas. Pouco tempo depois, novas células são construídas
para ocupar o lugar vago. Normalmente os favos, ou cachos, vão
sendo construídos de baixo para cima, até reiniciar-se novamente
o ciclo.
Em muitas espécies, em torno dos favos de cria existem invólucros
de cerume, compostos de uma ou várias membranas irregulares, que
servem para conservar o calor.
As abelhas sem ferrão guardam seus alimentos, mel e pólen, em
potes de cerume ovóides, redondos ou cilíndricos. Às
vezes estes potes são bem grandes se comparados ao
tamanho das abelhas. Não há um local específico para estes potes
de alimento. Comumente são construídos ao redor dos favos de cria,
mas sua disposição dependerá muito do aproveitamento do espaço
disponível.
A estrutura hierárquica dos meliponídeos é basicamente a mesma
das Apis. As maiores diferenças correm por conta de “sua
majestade”.
As rainhas nascem de células iguais às das operárias na tribo
Meliponini, e de células maiores, as realeiras - geralmente construídas
nas periferias dos favos - nas tribos Trigonini e Lestrimellitini.
Aqui temos a maior diferença entre melíponas e trigo-nas. Nas
melíponas a diferenciação das três castas presentes tem bases
genéticas, ou seja, rainha, operária e zangão são geneticamente
diferentes. Nas trigonas a diferenciação se dá como nas Apis.
A rainha recém eclodida das melíponas é do mesmo tamanho que as
operárias, mas as proporções corporais e os desenhos do corpo
são diferentes. Quando são fecundadas, o abdômen cresce muito,
e a rainha torna-se fisogástrica e não consegue mais voar.
As rainhas das trigonas que eclodem das células reais são bem
maiores que as operárias. Quando fecundadas seguem o mesmo caminho
de suas primas melíponas, ficando fisogástricas.
A interação entre rainhas, operárias e princesas entre os meliponídeos
é mais fluida do que nas Apis. Dentre as melíponas as princesas
(sempre as há) andam livremente pela colmeia até completarem sua
maturação fisiológica. Neste ponto, se não houver necessidade
de substituir a atual rainha ou se não se estiver preparando um
enxame, estas princesas são mortas. Pode acontecer de alguma sair
para o vôo nupcial, retornar fecundada para a casa e aí permanecer
por alguns dias, só então sendo eliminada. Há ainda espécies que
aceitam mais de uma rainha, como a guaraipo.
Nas trigonas acontece um processo interessante. Quando uma ou
mais princesas nascem, podem apresentar uma atratividade especial
e logo formam uma corte ao redor. Então a princesa e sua corte
constroem uma espécie de “prisão” de cerume ao seu
redor, onde a princesa completará sua maturação acompanhada de
algumas operá-rias. Num certo momento a nova rainha virgem abandona
o seu refúgio e começa a andar livremente pelos favos de cria,
território da rainha-mãe. À partir daí a seqüência do processo
dá-se mais ou menos como acima descrito.
Esta maneira de agir, tendo quase sempre rainhas virgens maduras
disponíveis, permite às colônias de meliponídeos uma longevidade
ímpar no mundo dos insetos sociais, só perdendo para certas espécies
de formigas. Sabe-se de ninhos de jataís com mais de 30 anos de
existência contínua. Para se ter uma idéia, na natureza uma colônia
de Apis localizada por mais de 5 anos em um mesmo local pode ser
considerada uma “colônia vovó”.
O trabalho de postura das rainhas nos meliponídeos é semelhante
ao da Apis. A maior diferença é que nas Apis as larvas recebem
uma alimentação progressiva e suas células são fechadas quando
chega a hora da metamorfose em pupa, enquanto que nos meliponídeos
primeiro a célula é abastecida de alimento, então a rainha deposita
seu ovo sobre este alimento e a célula é fechada.
O processo de enxameação também é um pouco diferente. As etapas
que levam à divisão da colônia são basicamente as mesmas entre
todas as abelhas. Porém nos meliponídeos a enxameação é progressiva,
ou seja a colméia-filha mantém um intercâmbio de material de construção
e alimento com a colméia-mãe, até que tenha condições de seguir
independente.
* * * Criação
de meliponídeos
O
processo organizacional dos meliponídeos, não sendo tão preciso
quanto o das Apis, dificulta a criação e manipulação destas abelhas
pelo homem. Por outro lado elas geralmente são dóceis e inofensivas,
e mesmo quando tentam se defender do homem, parecem criancinhas
brincando.
A delicadeza e fragilidade de uma abelha indígena exige delicadeza
de coração de quem for trabalhar com ela. Mas sempre deve ser
lembrado que abelha é sempre abelha, e por menor que esta seja,
no seio da família há uma energia própria de grande poder. Portanto
esta delicadeza é relativa.
Cada colônia de meliponídeo é única, e uma técnica usada em uma
pode não servir para outra, mesmo que seja da mesma espécie. É
sempre um trabalho de paciência abrir uma caixa destas abelhinhas.
É muito comum no interior do
Brasil encontrar-se nas varandas das casas cabaças penduradas
onde foram alojadas abelhas indígenas. O povo rude sabe recolhê-las
da natureza e colocá-las em caixas rústicas ou tocos de árvores,
tanto para carinhosamente tê-las por perto, protegidas de vândalos,
como para extrair seu mel, muitas vezes saboroso e sempre famoso
por suas propriedades medicinais.
Devido à facilidade de encontrá-las e retirar o mel – afinal,
não possuem ferrão – são abelhas que correm sério risco
de extinção, e muito sofrem nas mãos dos chamados “mateiros”.
Não possuem a força de suas irmãs maiores, as Apis, e uma queimada
quase sempre é morte certa para muitas colônias, pois raramente
conseguem fugir a tempo do fogo devastador. Um grande serviço
é prestado quando alguém acolhe uma destas colônias, seja numa
caixa racional, seja deixando-a em paz no local que escolheu,
talvez um canto do muro do quintal.
As caixas racionais são de vários tipos, e cada uma tem suas vantagens
e desvantagens. O modelo também depende de qual espécie se pretenda
alojar. Por mais bem elaborada que seja uma destas caixas, sempre
é uma “operação cirúrgica” realizar uma intervenção,
pois nunca se sabe ao certo como as abelhas se utilizaram do espaço
disponível. A única coisa que se sabe exatamente onde encontrar
é o ninho propriamente dito.
Os instrumentos utilizados também lembram uma operação cirúrgica:
pinças e facas para manipular o ninho, seringas e conta-gotas
para manipular o mel. Comum com a Apis, temos o formão, pois abrir
a caixa às vezes é muito difícil devido à própolis. A máscara
e a fumaça normalmente são dispensáveis. Porém há espécies que
gostam de enroscar nos cabelos e entrar nos ouvidos e narinas;
neste caso é aconselhável o uso da máscara. A fumaça pode ser
útil também, a fim de mantê-las tranqüilas para sua própria segurança.
Há meliponídeos que não se prestam à convivência harmoniosa com
o homem como a irapuá que, além de daninha, é extremamente agressiva.
Seus ninhos são aéreos e ela não aceita caixas racionais. Também
não permite que ninguém se aproxime demasiado de seu ninho. Logo
que identifica um intruso em seu território acorre às centenas
mordendo a pele, enroscando nos cabelos e jogando bolinhas de
própolis. Seguramente não é muito agradável tê-las grudadas por
todo o corpo. No entanto as irapuás são excelentes polinizadoras
de várias espécies de plantas; logo é preciso discernimento ao
agir com elas. Além da irapuá há a caga-fogo, que é muito inamistosa,
e as abelhas-limão, que são parasitas.
A localização do meliponiário não é tão delicada quanto a de um
apiário. Tendo uma flora razoável, um pouco de tranqüilidade,
e proteção contra as intempéries, estas abelhas estão bem em qualquer
lugar. Pode-se alojá-las em abrigos coletivos: estantes cobertas
no jardim ou horta, por exemplo. Se for um lugar frio, cada caixa
pode receber uma proteção adicional de isopor ou outro material
isolante. É importante também que não estejam expostas ao sol
direto durante muitas horas. As caixas podem ser penduradas em
varandas ou sob beirais de telhados, locais onde ficam muito bem.
Até mesmo dentro de casa podem ser colocadas, desde que disponham
de uma passagem sempre livre para o exterior.