.:.:. Agricultura .:.:.

As abelhas

Propostas de trabalho para mais de um dia de estudo
O Homem e a Abelha

Apicultura Racional 
 

Descrevemos no capítulo anterior a vida em uma colônia de Apis. A vida em colônias de outras espécies sociais é essencialmente análoga. Contudo a forma de interação com o homem difere em vários pontos. As abelha nativas do Brasil serão tratadas em outro capítulo. Vamos ver aqui rapidamente como o homem interage com as Apis. 

Há milênios o homem tenta criar abelhas a fim de extrair seus produtos, principalmente mel e cera. Até o início do século era um costume, especialmente com as mansas abelhas européias, alojar os enxames em caixas rústicas e cestos de colmo (donde o nome colméia) e deixá-los no quintal. No momento de coletar o material era necessário destruir praticamente todo o ninho. Os favos eram espremidos para se retirar o mel, e a cera, derretida. E a colônia via-se obrigada a reconstruir tudo novamente. 

Muitos naturalistas preocupavam-se em melhorar as condições de manejo das colônias tanto em relação ao homem quanto em relação a elas. Assim foram inventando vários tipos de abrigos para enxames, quase sempre sem muito sucesso. Contudo em meados do século passado um professor de matemática americano, Lorenzo Langstroth, descobriu o chamado espaço abelha e idealizou as colméias que usamos hoje, chamadas Langstroth, standard, ou americana, com quadros móveis e muito confortável para as abelhas e para o homem. Estas colméias são padrão praticamente no   mundo todo.

O que permitiu a racionalização da apicultura – técnica de criar abelhas do gênero Apis – foi a milimétrica organização do ninho. O espaço-abelha é simplesmente o tamanho exato dos vãos que permitem a movimentação das abelhas por entre os favos e outras dependências do local onde está o ninho. Se o vão for maior elas constroem favos, ou estruturas de cera; se for menor elas vedam com própolis. Deixando este espaço adequado entre os quadros – que são molduras móveis colocadas nas caixas – consegue-se forçá-las a construir seus favos dentro deles sem soldá-los entre si ou na caixa. A forma de conduzi-las a construir seus favos “corretamente” é colocando uma lâmina de cera na moldura. Elas encontram a lâmina e orientam-se pela mesma. Estas lâminas podem ainda ser impressas com hexágonos de maneira que as abelhas só precisam elevar as paredes dos alvéolos. As lâminas assim preparadas são ditas lâminas ou folhas de cera alveolada 

As caixas usadas têm também medidas adequadas ao comportamento biológico das abelhas. Langstroth observou cuidadosamente as necessidades de espaço das famílias e conseguiu elaborar uma caixa com volume e dimensões 
praticamente ideais. 

O sistema desta colméia é baseado em 5 partes móveis: 

  • um fundo ou assoalho;  
  • um ninho, que é uma caixa sem fundo e tampo onde cabem 10 quadros;  
  • uma melgueira, que é uma caixa semelhante ao ninho, porém com metade da altura;  
  • os quadros, que são de dois tipos, um para ninho e outro para melgueira, com metade da altura do primeiro;  
  • uma tampa;  
A montagem é a seguinte, de baixo para cima: fundo, ninho, melgueira e tampa. Entre o fundo e o ninho fica uma abertura na frente e uma plataforma de pouso e decolagem: é o alvado. O ninho tem este nome por ser onde normalmente ficarão a 
rainha e sua prole. A melgueira é onde deverá ficar o excesso de mel produzido e que poderá ser extraído pelo homem sem prejuízo da família. Em certas situações usa-se uma tela entre o ninho e a melgueira para evitar que a rainha faça postura fora do ni-nho: é a tela excluidora, que permite a passagem apenas de operárias. Esta disposição segue o princípio da natureza. A abelha sempre deposita o mel acima e ao redor do local onde ficam as crias, devido às qualidades térmicas deste, que serve como um cobertor. 

Uma vez alojadas em caixas racionais e colocadas em apiários, as abelhas tornam-se uma responsabilidade para o homem que as recolheu, e devem ser amorosamente cuidadas e providas de tudo quanto for necessário para seu bem estar.  

Na natureza à medida que a colméia vai crescendo, necessita de espaço. Um favo que serviu a várias gerações de abelhas torna-se, por vários motivos, impróprio para o uso, e então elas o abandonam. Enquanto houver espaço elas vão construindo novos favos. Uma vez ocupado todo o espaço disponível, toda a colônia parte para outro local. 

Nas caixas racionais o homem pode cuidar para que não falte o precioso espaço para trabalho. Nas revisões periódicas podemos substituir os quadros impróprios por novos com cera alveolada ou podemos expandir a colméia colocando novas caixas de ninho ou melgueira, dependendo do caso. E neste trabalho é preciso ter em mente que a abelha necessita do espaço para trabalhar. Uma colméia que se vê sem espaço e, de repente, o recebe, logo demonstra sua gratidão através de um considerável aumento de atividade. 

O caso oposto também acontece. Se a flora está escassa, se não há alimento na natureza, o homem é obrigado a suprir as colônias que estão sob sua guarda. É então o momento de adequar o espaço da colméia reduzindo-o retirando uma ou mais caixas. Em épocas de escassez a rainha restringe sua postura, o número de indivíduos diminui, e um espaço muito grande não pode ser cuidado por elas. Comumente é necessário alimentar as famílias. Para isto existem equipamentos próprios, e dever-se-ia sempre usar mel puro para esta finalidade. 

A manipulação das colméias deve ser feita de maneira segura, decidida, harmoniosa e silenciosa. As abelhas são muito sensíveis a cheiros fortes, cores escuras, barulhos e desequilíbrios humanos em geral. Quem for trabalhar com elas deve estar equili-brado em todos os níveis do ser. As abelhas africanizadas do Brasil, em particular, são bastante agressivas, ou melhor, defensivas, e com elas é preciso muito cuidado. 

Existem várias ferramentas e apetrechos apropriados ao manejo das abelhas. Para começar o apicultor deve estar corretamente vestido. É indispensável o uso do macacão com máscara, luvas e botas, tudo de cor branca. Além disso ninguém deve ir ao apiário trabalhar sozinho.

O início do trabalho dá-se com o lançamento de fumaça no interior da colméia. Isto é feito com o fumigador. A fumaça deve ser limpa, densa e fria. Seu objetivo é causar nas abelhas um certo sufocamento e a ilusão de um incêndio. Diante desta ameaça elas se preocupam em arejar e casa e preparar a fuga, enchendo-se de mel. Além de ficarem distraídas, com o estômago repleto de mel ficam impedidas de usar o ferrão eficazmente. A quantidade de fumaça deve ser o mínimo para mantê-las controladas, e alguém deve ficar encarregado do fumigador o tempo todo. 

Uma vez fumigada a colméia, abre-se lentamente a tampa superior com o formão de apicultor, deixando inicialmente uma pequena fresta para que as abelhas acostumem-se com a luz exterior, ao mesmo tempo que se lança mais um pouco de fumaça por esta abertura. 

A seqüência do trabalho dá-se com naturalidade, levantando as caixas que forem necessárias e examinando o interior das mesmas, dependendo do objetivo da manipulação (revisão de rotina, revisão de emergência, extração de mel, etc.). 

A observação do movimento no alvado sempre dá indícios claros de como está o interior da colméia. Por exemplo, seja uma colônia forte ou fraca, se há rainha presente, o movimento é ordenado, embora seja mais ou menos intenso. Assim sendo só se deve abrir uma colméia se for época de revisão regular ou se for notado algum comportamento estranho no alvado. 
 
Para manter a ordem e harmonia no apiário, é necessário dar condições às colônias de se manterem fortes. Portanto sempre se deve estar atento com a qualidade da rainha presente em uma colônia. Uma rainha é boa se seu padrão de postura é regular e constante. Caso seja necessário, o homem deve intervir, pois às vezes uma família não possui iniciativa suficiente para substituir sua mestra. Neste caso uma das técnicas mais simples é a seguinte: localiza-se a rainha fraca ou velha, retira-a da colméia e introduz-se quadros com ovos e crias de até um dia retirados de uma família forte. Notada a ausência da abelha-mãe, as filhas vão logo tratar de puxar uma ou mais realeiras, e possi-velmente usarão das crias introduzidas para gerar novas rainhas. Há outras técnicas como a introdução de rainhas já nascidas ou mesmo fecundadas, união das famílias fracas, etc. 

O apiário deve ser estabelecido em um local afastado no mínimo 400 metros de habitações ou lugares onde haja barulho e mal cheiro. Deve estar sempre bem capinado, limpo e ordenado para evitar formigas, aranhas e outros insetos. É preciso que haja água boa por perto e que seja protegido de ventos e poeira. As colméias devem ser protegidas com telhados e estar colocadas sobre estrados comunitários ou suportes individuais a uma altura mínima de 50 centímetros do solo. Assim ficam abrigadas da chuva e do ataque de animais. Uma proteção especial contra formigas também é necessária às vezes. Enfim, é necessário manter as famílias custodiadas rodeadas de toda segurança e conforto possíveis. 

 

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