.:.:. Agricultura .:.:.

As abelhas

A VIDA DAS ABELHAS 

O equilíbrio em uma colméia de Apis é algo que depende das três castas (rainha, zangão, operária) presentes. Não há individualidade como a compreendemos. Todas as decisões são tomadas por um espírito presente e cada membro da colônia sabe exatamente o que fazer. Se pensarmos na colméia como um corpo uno, cada indivíduo é uma célula. O cérebro deste corpo e os órgãos que o permitem sobreviver, alimentar-se, etc., são as operárias. O centro do equilíbrio ou o centro do corpo, en-contra-se na rainha. Uma colméia sem rainha torna-se um corpo desordenado, sem vi-talidade e fadado à morte. O ponto de apoio da continuidade da família é o zangão. O zangão é uma presença cíclica indispensável ao equilíbrio fornecido pela rainha.

Dentro de uma colméia nada é inútil, e o que se torna inútil é imediatamente descartado, seja uma operária doente, uma rainha infecunda ou um zangão durante os períodos em que não é necessário. A abelha é um ser que vive integralmente o momento presente. Para ela não há passado ou futuro. Cumpre sua missão sem questio-nar. É um ser pronto a atender todas asemergências, e numa colméia uma emergência é atendida, sem titubear, por toda a colônia. As abelhas não conhecem o medo e a indecisão. Sua vida é uma permanente glorificação ao Pai.

Na colméia não há repouso. Uma operária começa a trabalhar assim que nasce, e a partir de então não pára. Sua vida de 40 dias é integral. A rainha também não pára. Eventualmente é necessário que diminua o seu ritmo de postura para que seja mantido o equilíbrio, por escassez de alimento ou algum outro motivo. Nesse momento as operárias ficam atentas, pois a rainha impacientemente procura cumprir sua tarefa.

O ciclo da abelha é solar. Ela é uma “filha do sol”. Sai de casa com o nascer do sol, e retorna com o pôr-do-sol. Sua capacidade de orientação depende do sol. Seu relógio interno, precisamente seguido, acompanha o relógio solar. Comparando-as com suas irmãs sociais, as formigas e as térmitas, disse um autor :

  • As Térmitas levam na sombra e umidade sua vida secreta. Seu império subterrâneo se estende por espaços imensos, marcados aqui e acolá por seus robustos ninhos elevados. Elas não saem à luz a não ser para celebrar suas núpcias, e como é próprio dos habitantes da escuridão, sua libré é sombria, esparsamente avivada por poucos toques brancos. Após uma breve fuga, elas retornam para sempre ao seu domínio tenebroso. 
  • As Formigas, menos temerosas, necessitam do dia luminoso, mas, pri-vadas de asas, seus horizontes são limitados. Pouco exigentes, elas se con-tentam com uma alimentação grosseira e se impõem uma severa economia. Algumas dentre elas chegam a alimentar suas larvas com bolotas de dejetos, o que é um cúmulo!
  • As abelhas vivem dentro da vibração luminosa, por entre os perfumes e cores deslumbrantes das corolas. Elas são as mensageiras do amor; seus beijos fecundam as flores que, sem elas, secariam estéreis. Elas escolheram o mais belo e radiante dos domínios, e se nutrem dos alimentos mais raros e suaves. Elas exprimem pelo seu zumbido a alegria de viver e de trabalhar. E o naturalista, escutando-as pelos campos, pergunta-se, assim como o poeta, se elas não são a alma da paisagem, se seus cantos não exaltam a beleza das flores e a vida dentro da efervescente luz do sol.
Considere uma colônia em pleno vigor, populosa, repleta de reservas de mel, com uma rainha forte. Estamos em meados de agosto, quando normalmente aproxima-se a florada da primavera. Neste momento a colônia decide que é hora de se dividir. A  casa está pequena, não há mais espaço para trabalhar, e este é o sinal. Um grupo de operárias começa a construir várias realeiras onde a rainha é levada a depositar ovos fecundados. Passado o período normal de incubação a primeira princesa emerge, e seu instinto básico força-a a tentar destruir as outras realeiras ainda não abertas. A rainha presente também não fica contente com a presença desta intrusa, mas as operárias já decidiram que outras princesas devem nascer, e o objetivo não é substituir a mestra, e sim dividir a família em um ou mais enxames; portanto não permitem as lutas naturais.

Agora que já há princesas, é dado o sinal. Um grupo de operárias dirige-se aos reservatórios de mel e enchem seus estômagos até não caber mais uma gota. Este grupo, normalmente bem numeroso, prepara-se para partir. Por algum 
mecanismo oculto convocam a rainha para a viagem. Logo sai da colméia aquela bela nuvem de abelhas, a rainha entre elas, e alguns zangões. O enxame não vai muito longe. Pousa em alguma árvore ali por perto, e algumas abelhas mais experientes, na qualidade de escoteiras, partem em busca de um novo local para habitar.

Quando as abelhas escoteiras retornam, há um “conselho” para decidir qual o rumo a tomar. Uma vez tomada a decisão elas partem para um vôo mais longo. O enxame pode ainda parar outras vezes. Às vezes o local escolhido não agrada ao grupo, que então aguarda por ali, para que nova pesquisa seja feita. Se um apicultor tentar colocar este “enxame voador” em uma caixa, ele poderá ou não aceitar a morada, dependendo das informações trazidas pelas escoteiras.

Enquanto isso, a colméia-mãe pode decidir por lançar outros enxames, desta vez acompanhados por rainhas virgens, ou ficar como está. Esses enxames posteriores ao primeiro em geral são menos numerosos e têm menos condições de sobreviver. É muito comum a colméia-mãe ficar com reduzido contingente de abelhas, chegando aos limites de uma extinção, ainda mais que contam com apenas uma chance de rainha, baseada numa das princesas que ficou.

Uma vez que este grupo encontra o lugar adequado, começa a construção do novo ninho. As abelhas engenheiras escolhem então o ponto mais central do que puder ser chamado de teto; ali formam um bolo compacto e começam a gerar calor usando a reserva de mel que trouxeram no papo. As abelhas que ficaram no centro da bola en-carregam-se de produzir cera, e logo é possível visualizar uma fina folha de cera vertical se formando. Em seguida algumas abelhas iniciam a construção dos alvéolos hexagonais, de ambos os lados da lâmina, seguindo uma intricada arquitetura que aproveita todos os espaços e ângulos da melhor maneira possível. Os alvéolos são construídos de forma a terem uma leve inclinação para cima, evitando que o seu conteúdo escorra para fora.

Concomitantemente abelhas campeiras pesquisam os arredores e coletam néctar e pólen, mais para a própria subsistência, já que o mel que trouxeram não deve ser gasto futilmente, por ser matéria prima para produção de cera. Dentro do novo ninho outras abelhas começam a vedar e purificar o ambiente com própolis. E a rainha impacientemente aguarda sua chance de trabalhar, e o faz logo que os primeiros alvéolos ficam prontos.

Está fundado o novo ninho. Ali impera a ordem e harmonia. A temperatura é mantida em torno dos 36* centígrados. Se faz calor as abelhas o refrigeram batendo as asas e aspergindo água; se faz frio, aglomeram-se e, usando o mel como combustível, geram calor. O próprio mel é um eficiente isolante térmico e ajuda neste controle. A limpeza é constante; qualquer detrito é imediatamente lançado fora e, de preferência, levado para longe da colméia. Intrusos são mantidos afastados pelas guardas; se algum consegue entrar é expulso ou morto e, no caso do cadáver não poder ser removido, é envolto em própolis. Aliás, a questão da segurança é fundamental na colméia. Diante de qualquer ameaça ou ataque a colônia reage como um único ser, de forma uníssona. Cada indivíduo põe-se em sacrifício pelo todo, pois as operárias ao ferroarem perdem seu ferrão, e com ele a vida. As primeiras que acorrem ao sinal de emergência logo avisam às outras através de um sistema sofisticado de alarme baseado em odores característicos. O cheiro do próprio veneno lançado age como sinalizador.

No dia a dia, cada membro da colméia cumpre precisamente sua função. As abelhas campeiras saem cedo, às vezes antes do nascer do sol. Pesquisam os campos ao redor até encontrarem as melhores fontes de néctar e pólen e trazem para a colméia a informação, que passam para as irmãs através de preciso sistema de comunicação corporal. Logo milhares de abelhas estarão fazendo sua colheita. Nas flores, enquanto sugam o néctar, recolhem pólen em suas corbículas. O néctar já começa a reagir com certas enzimas da saliva e em seguida, na vesícula melífera, continua seu processo de transformação em direção ao mel. A abelha carregada, ao retornar para casa, logo é abordada pelas guardiãs, que conferem se ela é da colônia ou não. Caso seja uma es-tranha, estando carregada, sua entrada é permitida, de outro modo é expulsa. Entrando na colméia, esta campeira passa sua carga de néctar a outra abelha, uma daquelas que cumpre a função de faxineira ou nutriz, que é quem vai depositá-lo nos reservatórios. Neste novo organismo o néctar continua sua transformação, que se completará posteriormente nos respectivos alvéolos. Se a campeira trouxe pólen, ela mesma corre a guardá-lo no lugar adequado para, a seguir, retornar à luz e continuar com seu trabalho.

Durante a coleta a abelha presta outro serviço como “mensageira do amor”: seu corpo cheio de pêlos impregna-se do pólen das flores que visita. Dentro de sua fi-delidade à ordem, a abelha continua visitando flores da mesma espécie até que se esgote este manancial. Assim ela vai carregando consigo a semente de vida das plantas e, ao voar de uma para outra permite e agiliza a reprodução e renovação destas. Tão fundamental é esta missão, que há plantas cuja única forma de fecundação é justamente através da visita de um destes seres. Existem espécies vegetais que dependem de um tipo exclusivo de abelhas para este processo.

Na escuridão da colméia as abelhas que ainda não saem vão cumprindo suas di-versas funções, mantendo a limpeza, a temperatura, alimentando as larvas e a rainha, desidratando o futuro mel, produzindo cera e própolis. Chegando na metade do dia, quando o sol atinge seu ápice, grande parte das abelhas que estava fora vai retornando, algumas trazendo água. Neste momento o calor vai aumentando e é preciso refrigerar a casa.

Mais tarde, em torno das três horas da tarde, é chegado o momento daquelas abelhas prontas para enfrentar pela primeira vez os ares do exterior realizarem suas “ousadias”. Reúnem-se no alvado (a entrada) da casa e, de repente, uma delas aventura-se num curto vôo. Segue alguns centímetros adiante, sempre voltada para a casa, e logo retorna, alegre pela sua experiência. Em seguida ousa um vôo mais longo, e assim vai, até que se veja dando voltas em torno e acima do local da colméia, executando espirais cada vez mais abertas. Neste momento elas estão gravando em seu cérebro a posição correta de sua habitação e arredores. A experiência é repetida nos dias seguintes até que todos os caminhos estejam memorizados.Então ela está pronta para enfrentar o mundo exterior.

Passado o período mais quente do dia, enquanto a festa do vôo das novatas vai terminando, novamente encontramos as campeiras em sua lida normal, aproveitando até o último instante possível a dádiva divina. O Sol caminha em direção ao poente, sua luz esvai-se aos poucos, e as incansáveis abelhas continuam, quase que aflitas, suas viagens. O Sol se põe. Algumas campeiras ficam para trás. Chegado o frio da escuri-dão da noite, resignam-se a escolher um abrigo esperando pelo novo alvorecer. Neste clima tropical sempre há calor e, mesmo solitária, a abelha passa bem a noite, apesar de ter os membros adormecidos.

Enquanto isso, lá na colméia tem início o período noturno de atividades com quase todos os membros presentes. Se faz muito calor, muitas abelhas ficam de fora da casa, “tomando a fresca”, e as outras vão cumprindo seus deveres.

Há momentos especiais na vida das abelhas, como o que foi descrito inicial-mente. Uma ocasião grave é quando elas percebem que a mãe de todas já não tem a mesma energia. Sendo uma família forte, decididamente não se permite 
enfraquecer. Então concluem que é hora de chamar à vida uma nova rainha. Numa colméia forte sempre há realeiras em construção: é uma questão de sobrevivência no caso de algum acidente acontecer com a mestra. Sendo esta, porém, prolífica, não é permitido a estas realeiras desenvolverem-se normalmente – a não ser nestas ocasiões especiais. Neste caso, uma rainha cuja energia se esvai é sinal para as realeiras seguirem seu curso. Tendo garantida uma ou mais princesas em formação, é necessário eliminar a velha mãe.Uma abelha comum nunca ferroa uma rainha; ela sequer lhe dá as costas. Assim elas são obrigadas a usar uma tática “sutil”.Formam uma bola em torno da idosa senhora e ali a vão sufocando até a morte; e a rainha, compreendendo sua sina, não pro-cura resistir. Terminada esta etapa, começam a nascer as novas princesas. Só pode haver uma rainha na colméia, e a primeira que emerge logo procura as outras realeiras para as destruir. Se duas nascem simultaneamente, lutam entre si, e vence a mais forte. A única sobrevivente segue seu curso normal para se tornar mais uma rainha completa. É interessante que neste momento toda uma família dependa de um único indivíduo para sua sobrevivência. Se a jovem rainha é, por exemplo, devorada por um pássaro durante seu vôo nupcial, sua colméia de origem fica irremediavelmente fadada à extinção.

 

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