A VIDA DAS ABELHAS O equilíbrio em uma colméia de Apis é algo que depende das três castas (rainha, zangão, operária) presentes. Não há individualidade como a compreendemos. Todas as decisões são tomadas por um espírito presente e cada membro da colônia sabe exatamente o que fazer. Se pensarmos na colméia como um corpo uno, cada indivíduo é uma célula. O cérebro deste corpo e os órgãos que o permitem sobreviver, alimentar-se, etc., são as operárias. O centro do equilíbrio ou o centro do corpo, en-contra-se na rainha. Uma colméia sem rainha torna-se um corpo desordenado, sem vi-talidade e fadado à morte. O ponto de apoio da continuidade da família é o zangão. O zangão é uma presença cíclica indispensável ao equilíbrio fornecido pela rainha. Dentro de uma colméia nada é inútil, e o que se torna inútil é imediatamente descartado, seja uma operária doente, uma rainha infecunda ou um zangão durante os períodos em que não é necessário. A abelha é um ser que vive integralmente o momento presente. Para ela não há passado ou futuro. Cumpre sua missão sem questio-nar. É um ser pronto a atender todas asemergências, e numa colméia uma emergência é atendida, sem titubear, por toda a colônia. As abelhas não conhecem o medo e a indecisão. Sua vida é uma permanente glorificação ao Pai. Na colméia não há repouso. Uma operária começa a trabalhar assim que nasce, e a partir de então não pára. Sua vida de 40 dias é integral. A rainha também não pára. Eventualmente é necessário que diminua o seu ritmo de postura para que seja mantido o equilíbrio, por escassez de alimento ou algum outro motivo. Nesse momento as operárias ficam atentas, pois a rainha impacientemente procura cumprir sua tarefa. O ciclo da abelha é solar. Ela é uma “filha do sol”. Sai de casa com o nascer do sol, e retorna com o pôr-do-sol. Sua capacidade de orientação depende do sol. Seu relógio interno, precisamente seguido, acompanha o relógio solar. Comparando-as com suas irmãs sociais, as formigas e as térmitas, disse um autor :
Agora
que já há princesas, é dado o sinal. Um grupo
de operárias dirige-se aos reservatórios de mel e
enchem seus estômagos até não caber mais uma
gota. Este grupo, normalmente bem numeroso, prepara-se para partir.
Por algum Quando as abelhas escoteiras retornam, há um “conselho” para decidir qual o rumo a tomar. Uma vez tomada a decisão elas partem para um vôo mais longo. O enxame pode ainda parar outras vezes. Às vezes o local escolhido não agrada ao grupo, que então aguarda por ali, para que nova pesquisa seja feita. Se um apicultor tentar colocar este “enxame voador” em uma caixa, ele poderá ou não aceitar a morada, dependendo das informações trazidas pelas escoteiras. Enquanto isso, a colméia-mãe pode decidir por lançar outros enxames, desta vez acompanhados por rainhas virgens, ou ficar como está. Esses enxames posteriores ao primeiro em geral são menos numerosos e têm menos condições de sobreviver. É muito comum a colméia-mãe ficar com reduzido contingente de abelhas, chegando aos limites de uma extinção, ainda mais que contam com apenas uma chance de rainha, baseada numa das princesas que ficou.
Está fundado o novo ninho. Ali impera a ordem e harmonia. A temperatura é mantida em torno dos 36* centígrados. Se faz calor as abelhas o refrigeram batendo as asas e aspergindo água; se faz frio, aglomeram-se e, usando o mel como combustível, geram calor. O próprio mel é um eficiente isolante térmico e ajuda neste controle. A limpeza é constante; qualquer detrito é imediatamente lançado fora e, de preferência, levado para longe da colméia. Intrusos são mantidos afastados pelas guardas; se algum consegue entrar é expulso ou morto e, no caso do cadáver não poder ser removido, é envolto em própolis. Aliás, a questão da segurança é fundamental na colméia. Diante de qualquer ameaça ou ataque a colônia reage como um único ser, de forma uníssona. Cada indivíduo põe-se em sacrifício pelo todo, pois as operárias ao ferroarem perdem seu ferrão, e com ele a vida. As primeiras que acorrem ao sinal de emergência logo avisam às outras através de um sistema sofisticado de alarme baseado em odores característicos. O cheiro do próprio veneno lançado age como sinalizador. No dia a dia, cada membro da colméia cumpre precisamente sua função. As abelhas campeiras saem cedo, às vezes antes do nascer do sol. Pesquisam os campos ao redor até encontrarem as melhores fontes de néctar e pólen e trazem para a colméia a informação, que passam para as irmãs através de preciso sistema de comunicação corporal. Logo milhares de abelhas estarão fazendo sua colheita. Nas flores, enquanto sugam o néctar, recolhem pólen em suas corbículas. O néctar já começa a reagir com certas enzimas da saliva e em seguida, na vesícula melífera, continua seu processo de transformação em direção ao mel. A abelha carregada, ao retornar para casa, logo é abordada pelas guardiãs, que conferem se ela é da colônia ou não. Caso seja uma es-tranha, estando carregada, sua entrada é permitida, de outro modo é expulsa. Entrando na colméia, esta campeira passa sua carga de néctar a outra abelha, uma daquelas que cumpre a função de faxineira ou nutriz, que é quem vai depositá-lo nos reservatórios. Neste novo organismo o néctar continua sua transformação, que se completará posteriormente nos respectivos alvéolos. Se a campeira trouxe pólen, ela mesma corre a guardá-lo no lugar adequado para, a seguir, retornar à luz e continuar com seu trabalho. Durante a coleta a abelha presta outro serviço como “mensageira do amor”: seu corpo cheio de pêlos impregna-se do pólen das flores que visita. Dentro de sua fi-delidade à ordem, a abelha continua visitando flores da mesma espécie até que se esgote este manancial. Assim ela vai carregando consigo a semente de vida das plantas e, ao voar de uma para outra permite e agiliza a reprodução e renovação destas. Tão fundamental é esta missão, que há plantas cuja única forma de fecundação é justamente através da visita de um destes seres. Existem espécies vegetais que dependem de um tipo exclusivo de abelhas para este processo. Na escuridão da colméia as abelhas que ainda não saem vão cumprindo suas di-versas funções, mantendo a limpeza, a temperatura, alimentando as larvas e a rainha, desidratando o futuro mel, produzindo cera e própolis. Chegando na metade do dia, quando o sol atinge seu ápice, grande parte das abelhas que estava fora vai retornando, algumas trazendo água. Neste momento o calor vai aumentando e é preciso refrigerar a casa. Mais tarde, em torno das três horas da tarde, é chegado o momento daquelas abelhas prontas para enfrentar pela primeira vez os ares do exterior realizarem suas “ousadias”. Reúnem-se no alvado (a entrada) da casa e, de repente, uma delas aventura-se num curto vôo. Segue alguns centímetros adiante, sempre voltada para a casa, e logo retorna, alegre pela sua experiência. Em seguida ousa um vôo mais longo, e assim vai, até que se veja dando voltas em torno e acima do local da colméia, executando espirais cada vez mais abertas. Neste momento elas estão gravando em seu cérebro a posição correta de sua habitação e arredores. A experiência é repetida nos dias seguintes até que todos os caminhos estejam memorizados.Então ela está pronta para enfrentar o mundo exterior. Passado o período mais quente do dia, enquanto a festa do vôo das novatas vai terminando, novamente encontramos as campeiras em sua lida normal, aproveitando até o último instante possível a dádiva divina. O Sol caminha em direção ao poente, sua luz esvai-se aos poucos, e as incansáveis abelhas continuam, quase que aflitas, suas viagens. O Sol se põe. Algumas campeiras ficam para trás. Chegado o frio da escuri-dão da noite, resignam-se a escolher um abrigo esperando pelo novo alvorecer. Neste clima tropical sempre há calor e, mesmo solitária, a abelha passa bem a noite, apesar de ter os membros adormecidos.
Há
momentos especiais na vida das abelhas, como o que foi descrito
inicial-mente. Uma ocasião grave é quando elas percebem
que a mãe de todas já não tem a mesma energia.
Sendo uma família forte, decididamente não se permite
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