Agricultura
Alternativa
A agricultura é a base da vida do homem de sempre. Sem alimento
não se vive, mas ultimamente o homem tem se esquecendo disso
e até vem mudando o referencial de valores para um ponto onde
ele é o centro, e assim vem constantemente se autodestruindo.
Mas nem todos se deixaram contaminar por essa energia egocentrica
destruidora e muitas iniciativas de reconstituição da essencia
, tem se tornado cada vez mais valorizada. Aqui estaremos ofertando
algumas informações que podem ajudar e esperamos também
a contribuição de todos que estiverem abertos para estas
propostas de Vida.
Indice Temático
Escolha
entre Duas Agriculturas;
| Método
Orgânico |
Método
Químico |
Equilíbrio
do solo
(vida microbiana húmus) |
Erosão
do solo (desaparecimento do húmus, desequilíbrio mineral) |
| Oligoelementos
ativos |
Sensibilidade
da planta (diante dos parasitas) |
| Resistência
da planta (diante dos parasitas) |
Uso
de pesticidas |
| Produto
equilibrado |
Produto
desequilibrado incapaz de manter a saúde (resíduos
de pesticidas - nitratos) |
| Respeito
do equilíbrio ecológico natural |
Poluição
ou deterioração do meio ecológico |
Este
quadro, simplificado ao máximo, mostra a relação estreita
que existe entre a agricultura e a saúde do consumidor. Hoje
está constatado cientificamente: que o método de cultura
determina a qualidade do solo; que o solo determina o equilíbrio
da planta; que a planta, por sua vez, determina a qualidade do sangue
do homem e do animal que dela se alimenta. Os alimentos normalmente
apresentados aos consumidores são muitas vezes desnaturados:
- por métodos de cultura (adubos, pesticidas), - por métodos
de criação dos animais (hormônios, vacinas, certos
produtos veterinários no-civos), - pela indústria alimentícia
(refinação, aditivos, corantes, conservantes ...) Para manter
a saúde, cada indivíduo precisa de alimentos sadios, isentos
de qualquer tipo de poluição e de alteração.
Agricultura
Química x Agricultura Ecológica
Agricultura Sustentável e Sistemas Ecológicos de Cultivo
Luis Fernando Wolff*
É necessário esclarecer que existem diferenças entre
a agricultura tradicional e a agricultura praticada atualmente. Chama-se
agricultura tradicional o conjunto de técnicas de cultivo que
vem sendo utilizado durante vários séculos pelos camponeses
e pelas comunidades indígenas. Estas técnicas priorizam
a utilização intensiva dos recursos naturais e da mão-de-obra
direta. A agricultura tradicional é praticada em pequenas propriedades
e destinada à subsistência da família camponesa ou
da comunidade indígena, com a produção de grande variedade
de produtos. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, teve início
um processo de declínio da agricultura tradicional praticada
até então. Na década de 60, começa a ser implantada
uma nova agricultura, chamada moderna, que se caracteriza pelo grande
uso de insumos externos, utilização de máquinas pesadas,
mau manejo do solo, uso de adubação química e biocidas.
A agricultura moderna existe há poucos anos e já demonstra
o colapso de suas técnicas. Desta forma, não pode ser considerada
uma agricultura de fato sustentável, ao contrário da agricultura
tradicional, que tem centenas de anos de história e sustentabilidade
a longo prazo. O termo mais adequado para denominar a agricultura
praticada atualmente é agricultura moderna, convencional, química
ou de consumo. Esta agricultura teve origem a partir de modificações
na base técnica da produção agrícola, o que se
chamou de modernização, e apresenta conseqüências
que demonstram sua insustentabilidade. O consumo exagerado de insumos
externos, ou seja, insumos de fora da propriedade ou de sua região,
geralmente são de alto custo e causam a dependência financeira,
tecnológica e biológica do produtor. A produção
destes insumos não passa pelo produtor e não é influenciada
por ele, gerando a dependência financeira e a dominação
do fornecedor. Da mesma forma, sua aplicação não é
de conhecimento e controle do produtor, de onde vem a dependência
tecnológica e, junto com ela, a biológica, no que se refere
à manipulação genética e uso de microorganismos.
As sementes tradicionais, que eram selecionadas e utilizadas pelos
camponeses ano após ano, estão se perdendo. Hoje, existe
apenas uma pequena variedade de plantas em que se consegue obter a
mesma produção a cada safra. Em geral, o produtor não
consegue mais utilizar a mesma semente, tem que adquirir outras variedades
e usar novos insumos. É o que acontece com a semente híbrida,
que exemplifica a típica ideologia da agricultura moderna: o
consumo permanente. Na agricultura moderna, tudo que é produzido
de dejetos, efluentes ou resíduos é lixo. Estes subprodutos
são depositados na natureza, causando grande impacto ambiental.
Esta maneira de pensar consumista é uma concepção muito
nova, moderna, destruidora, não-regenerativa que reflete a falta
de harmonia entre homem e ambiente e a despreocupação com
o todo. O mesmo acontece nas cidades. A área onde são construídas
as cidades é a mesma em que são colocados os dejetos produzidos
por elas. Isto significa o homem poluir a si mesmo. A utilização
de máquinas pesadas também faz parte da ideologia da agricultura
moderna. Quanto maiores forem as máquinas, mais tecnologia e
status representam. No entanto, estas máquinas têm um alto
custo e exigem financiamentos que causam o endividamento do produtor
agrícola. Isto não é sustentabilidade. Outro inconveniente
do uso de máquinas pesadas é o grande impacto na estrutura
do solo e o afastamento do agricultor da terra. A desestruturação
do solo causa a pulverização e compatacção da
terra. Já o afastamento do agricultor da terra faz com que se
perca o contato com a mesma, o diálogo com a natureza e a observação
das plantas e animais. Além disto, também possui conseqüências
sociais, como a migração do colono para as cidades por causa
de financiamentos que acabam comprometendo a propriedade. O mau manejo
e o uso intensivo do solo também provocam desestruturação.
Na camada mais superficial, o solo fica desintegrado, pulverizado.
Na camada mais profunda, o solo fica compactado pelo uso sistemático
de máquinas pesadas. Com o tempo, forma-se uma camada dura e
compactada embaixo da terra e uma camada fofa e pulverizada em cima,
que, teoricamente, seria o ideal para receber a semente. Estas condições,
aliadas à chuva, causam o deslocamento do solo -- também
chamado de perda de solo anual --, a dificuldade de penetração
e fixação das culturas, a dificuldade de trocas químicas,
a dificuldade de absorção de água e oxigênio e
a intoxicação ou eliminação total da microvida.
Este é o custo ambiental da agricultura moderna e do mau manejo
do solo. A adubaçao química pesada, de alto custo, causa
o desequilíbrio fisiológico da planta, o desequilíbrio
ecológico do solo e a dependência do agricultor. As plantas
possuem um mecanismo de resistência a "pragas" -- o
termo correto seria "insetos com fome" (Teoria da Trofobiose,
de Francis Chaubossou) -- que se baseia em seu equilíbrio fisiológico.
As plantas equilibradas não são boas hospedeiras ou bons
alimentos para bactérias, fungos, vírus, insetos, nematóides,
ácaros. Isto ocorre porque estas plantas apresentam em sua seiva
proteínas complexas que não podem ser desdobradas por estes
organismos pela falta de enzimas necessárias para a quebra das
cadeias de proteínas. Já as plantas desequilibradas por
estresse, por aplicação de produtos químicos, por variações
de clima, por inadequação da espécie à região,
são bons alimentos, pois possuem menor capacidade de metabolização
dos aminoácidos livres para transformá-los em proteínas
complexas. Desta forma, o inseto dito "praga" tem condições
de evoluir, já que os aminoácidos livres são alimento
para ele. O desequilíbrio biológico do solo, causado pela
utilização de produtos químicos, afeta microorganismos
responsáveis pela disponibilidade de nutrientes importantes para
a planta que não consegue absorvê-los através de suas
raízes. Desta forma, não existe a colaboração
de microorganismos do solo para processamento da matéria orgânnica.
Esta microvida está sendo sistematicamente eliminada. Além
disso, quando o agricultor trabalha com adubação química
constante, cria a necessidade cada vez maior de utilização
de nutrientes químicos, ocorrendo sua dependência econômica
e cultural. O uso freqüente e intensivo de biocidas (herbicidas,
inseticidas, acaricidas, nematicidas, fungicidas) é uma prática
de conseqüências bastante graves. Os adeptos da agricultura
moderna não gostam deste termo, mas, na verdade, os biocidas
são produtos que matam a vida. Alguns matam ervas, insetos, ácaros,
mas se o homem entra em contato com estes produtos também acaba
morrendo ou tendo doenças como câncer e degenerações
genéticas. O que fica bem caracterizado dentro do modelo de agricultura
moderna é a dependência tecnológica e cultural. A cultura
agrícola camponesa, tradicional, vai se perdendo com o tempo,
principalmente com o desrespeito ao agricultor e a supervalorização
do técnico-cientista, que impõe técnicas importadas,
desconhecidas pelo agricultor, assim como acontece com os insumos.
A destruição de alimentos, o consumo exagerado, a insustentabilidade
a longo prazo e o balanço energético negativo também
são características próprias da agricultura moderna.
Dentro das estruturas de transofrmação de alimentos, a perda
e a ineficiência do processo são muito grandes. A destruiução
de alimentos pode ser observada através das questões de
mercado, da estocagem, do transporte e da comercialização.
A agricultura moderna, extremamente consumista, não fecha ciclos,
não tem a preocupação de reciclar, de regenerar, de
fazer com que o produto retorne para a fonte. Isto é observado
nos lixões das cidades. O material orgânico não retorna
para a agricultura em forma de adubo e o material mineral -- latas,
vidros -- não retorna para a produção. tudo é
consumido ou descartado. O não fechamento de ciclos tem um balanço
energético negativo. A sociedade moderna consome mais do que
produz. E isto tem reflexos na insustentabiliade da agricultura moderna.
Consederando-se a história da humanidade, este novo modelo de
agricultura está em prática há um período muito
curto. No entanto, já mostra seu colapso. Deve-se perceber este
colapso e encontrar caminhos. Um deles é retomar a agricultura
tradicional do ponês, conhecer fundamentos e práticas agrícolas
já esquecidas e buscar alternativas sustentáveis para a
agricultura. Como alternativa à agricultura moderna amplamente
praticada atualmente, a agricultura ecológica começa a se
estender no mundo e no Brasil através de diversas correntes que
se diferenciam em alguns pontos, mas possuem princípios comuns.
Estas tendências têm origem e precursores diferentes, recebem
denominações específicas -- AgriculturaOrgânica,Agricultura.Biodinâmica,
Agricultura.Natural, Permacultura,Agricultura. Alternativa, Agricultura.Nasseriana
--, mas possuem o mesmo objetivo: promover mudanças tecnológicas
e filosóficas na :
Agricultura Orgânica:
é a mais antiga e tradicional corrente da agricultura ecológica.
Teve origem na Índia e foi trazida por acadêmicos franceses
e ingleses, ainda hoje influenciando a sua sistemática de trabalho.
A agricultura orgânica é baseada na compostagem de matéria
organica, com a utilização de microorganismos eficientes
para processamento mais rápido do composto; na adubação
exclusivamente orgânica, com reciclagem de nutrientes no solo;
e na rotação de culturas. Os animais não são utilizados
na produção agrícola, a não ser como tração
dos implementos e como produtores e recicladores de esterco.
Agricultura Biodinâmica
Originária da Alemanha, é baseada no trabalho de Rudolf
Steiner. As principais características, além da compostagem,
é a utilização de "preparados" homeopáticos
ou biodinâmicos, elementos fundamentais na produção
que são utilizados para fortalecimento da planta, deixando-a
resistente a determinadas bactérias e fungos, e do solo, ativando
sua microvida. Os animais são integrados na lavoura para aproveitamento
de alimentos, ou seja, aquilo que o animal tira da propriedade volta
para aterra. A importação de adubo orgânico não
é permitida, pois materiais organicos de fora da propriedade
ou da região não são adequados por não possuírem
a bioquímica, a energia ou a vibração adequada à
cultura. Existe a preocupação com o paisagismo, com a arquitetura
e com a captação da energia cósmica. A agricultura
biodinâmica está baseada na Antroposofia, que prega a importância
de conhecer a influência dos astros sobre todas as coisas que
acontecem na superfície da terra.
Agricultura Natural:
Com origem no Japão, a principal divulgadora desta corrente de
trabalho ecológico é a Mokiti Okada Association (MOA). Além
da compostagem, utilizam microorganismos eficientes que têm capacidade
de processar e desenvolver matéria orgânica útil. Utilizam
a adaptação da planta ao solo e do solo à planta. Este
é o primeiro passo para a manipulação negética
e, conseqüentemente, para a dominação tecnológica,
característica semelhante à agricultura moderna, não
sendo bem aceita por outras correntes da agricultura ecológica.
Permacultura:
Tem origem na Austrália e no Japão e seque o pensamento
de Bill Mollison. As principais características são os sistemas
de cultivo (sistemas agro-silvo-pastoris) e os extratos múltiplos
de culturas. Utilizam a compostagem, ciclos fechados de nutrientes,
integração de animais aos sistemas, paisagismo e arquitetura
integrados. Na Permacultura nào existem tecnologias adequadas
ou próprias, mas sim "tecnologias apropriadas". A comunidade
tem determinada importância, deve ser auto-sustentável e
auto-suficiente, produzindo seus alimentos, implementos e serviços
sem a existência de capital. A comercialização deve
ser feita através da troca de produtos e serviços.
Agricultura Alternativa:
Seus precursores no Brasil foram Ana Primavesi, José Lutzenberger,
Sebastião Pinheiro, Pinheiro Machado e Maria José Guazelli.
Os princípios desta corrente são a compostagem, adubação
orgânica e mineral de baixa solubilidade. Dentro da linha alternativa,
o equilíbrio nutricional da planta é fundamental. Aparece,
então, o conceito de Trofobiose, que considera a fisiologia da
planta em elação a sua resistência a "pragas"
e "doenças". Outra característica é o uso
de sistemas agrícolas regenerativos, e daí surgiu a agricultura
regenerativa, termo defendido por José Lutzenberger. Outras pessoas
dentro desta mesma tendência adotaram o termo agroecologia (Miguel
Altieri) que possui um cunho político e social. A agroecologia
prioriza não só a produção do alimento, mas também
o processamento e a comercialização. Esta linha também
se preocupa com questões sociais como a luta pela terra, fixação
do homem ao campo e reforma agrária.
Nasseriana:
É a mais nova correne da agricultura ecológica e tem como
base a experiência de Nasser Youssef Nasr no Espírito santo.
Também chamada de biotecnologia tropical, defende o estímulo
e manejo de ervas nativas e exóticas, a multidiversidade de insetos
e plantas, a aplicação direta de estercos e resíduos
orgânicos na base das plantas, adubações orgânicas
e minerais pesadas. Nasser diz que a agricultura de clima tropical
do Brasil não precisa de compostagem, pois o clima quente e as
reações fisiológicas e bioquímicas intensas garantem
a transformação no solo da mataéria orgânica.
No Brasil, defende Nasser, o esterco deve ser colocado diretamente
na planta, pois esta sabe o momento apropriado de lançar suas
radículas na matéria orgânica que está em decomposição,
e os microorganismos do solo buscam no esterno os nutrientes necessários
para aplanta e os levam para baixo da terra. Outro ponto interessante
é o uso de ervas nativas e exóticas junto com a cultura
para que haja diversidade de inços. Desta forma, é preciso
manejar as ervas nativas de maneira que elas mantenham o solo protegido
e façam adubação verde. Não temos uma agricultura
de solo, mas de sol.
________________________________________________________________________________
Todas
estas diversas correntes e tendências dentro da agricultura ecológica
concordam que a agricultura sustentável precisa de alguns princípios
básicos para se implantar como tal. O primordial seria o respeito,
a observação e o diálogo com a natureza. Um verdadeiro
camponês, agricultor, agrônomo ou técnico agrícola
deve ter a capacidade de perceber e de entender o que está acontecendo
com a planta e com o animal. Isto resulta no uso da natureza a favor
da cultura. Também é importante o aproveitamento de recursos
naturais renováveis, a reciclagem de lixo orgânico e de
resíduos, a adubação orgânica e a humidificação
do solo, a adubação mineral pouco solúvel, o uso de
defensivos naturais, o controle biológico e mecânico de
insetos e ervas, a permanente cobertura do solo e a adubação
verde. Outras técnicas comuns são a diversificação
dos cultivos e dos animais, a consorciação e a rotação
de culturas e a não-utilização de agrotóxicos,
adubos químicos solúveis e hormônios vegetais ou animais.
Com relação a defensivos naturais, alguns são tolerados
pela agricultura ecológica. Nenhuma corrente recomenda produtos
para controle de insetos, ácaros ou fungos, mas existe a possibilidade
de usar extratos e caldas vegetais -- piretro, nicotina, retonona,
sabadilha --, pó de enxofre, calda bordalesa e sulfocálcica,
sulfato de zinco, permanganato de potássio. Estes produtos são
usados com pouco ou menor impacto ambiental. Soluções de
óleo mineral, querosene e sabão são produtos que podem
ser usados, pois não são intoxicantes ou impactantes do
meio ambiente.
*O autor é engenheiro-agrônomo formado pela UFRGS em
1987, é apicultor profissional e Coordenador Técnico da
Fundação Gaia.(Texto publicado no AgirAzul nº 10)