A Nova História - Camandocaia, um vale de mil faces
Mais uma vez vamos afirmar que nossa região é uma antiga
encruzilhada. Muitos têm confluído para ela, embaralhando
e complicando a sua História: índios, homens brancos,
animais de carga, veículos, mercadorias, idéias, religiões,
modos de vida... E
mesmo os vegetais. Tidos como regionais, na verdade - à
exceção das espécies levantadas por M. Kuhlmann
e Eduardo Kuhn (1), espécies autóctones
há muito ali estabelecidas - quase todas nasceram muito longe.
Mangueiras,
laranjeiras,
limoeiros, tangerineiras, o próprio café originário
da Ásia, vieram para cá com o europeu. E os pinheiros?
A exceção do pinheiro do Paraná
(2), quase todos vieram do velho mundo. Isso sem citar o já
tão comum eucalipto, imigrante australiano, ao qual se dedicou
Navarro de Andrade, e que está presente em quase todas as propriedades
rurais que conhecemos. Se elaborássemos a genealogia dos homens
da região, dos nascidos no vale do Camandocaia, ou de seus
descendentes, dos que cultivaram as suas terras, perceberíamos
a diversidade de suas origens. Gente pioneira que veiocom o
bandeirismo; gente que veio da África distante em navios escuros
e pestilentos, acorrentada, assustada com receio do futuro; gente
que veio da "bota", do norte, do sul, tentar a sorte, fugindo da guerra,
em busca de aventura, do pé de meia. Tanto na sua conformação humana como física, esse vale do Camandocaia de cruzamentos, esse vale às vezes excêntrico, apresenta-se como um sistema onde tudo se mistura e se reestrutura numa unidade original. Ainda em meados do século XVIII as descobertas do ouro em solo mineiro se estendiam cada vez mais para o sul em direçãoa territórios paulistas. As descobertas das minas de Campanha, Ouro Fino e Santa Ana do Sapucaí, dentre outras, provocaram a alteração de divisas entre as duas Capitanias. Atravessando o vale do Camandocaia ao norte, a antiga linha divisória, por provisão de 1748, teria um alinhamento reto, desde o Morro do Lopo (3), passando pela Serra do Mogi-Guassú, até encontrar a estrada São Paulo-Goiás (4). Tangenciava, então, a região amparense. Como
essas divisas só seriam, finalmente, regulamentadas em 1936,
todo esse tempo permaneceram "flutuantes", variando conforme a presença
do ouro. São, provavelmente, dessa época as primeiras
investidas do homem branco ao vale do Camandocaia. Simão de
Toledo Pizza desceu o rio até a Cachoeira do Falcão
em 1771. Desbravadores e garimpeiros desconhecidos por nós
estiveram no Brumado (5) nesses mesmos tempos.
Essa corrida perscrutadora efetivou as primeiras picadas, os primeiros caminhos. Pelo menos dois deles cruzaram a fronteira de 1748 entre Minas e São Paulo, em nosso trecho de interesse. O primeiro, vindo das minas de Cabo Verde e Rio Pardo, passava por Ouro Fino e atingia, do lado paulista, a povoação de Mogi-Guassú às margens das estrada São Paulo-Goiás. O segundo, passando pelo Morro do Lopo, ligava Ouro Fino a São Paulo. Esses dois caminhos, aliados à estrada São Paulo-Goiás, delimitaram uma grande área que inseria o vale do Camandocaia. Hoje, de olho nas aerofotografias, o rio ainda aparece como uma fenda, um fio que se alarga e se estreita, curva-se às vezes em ômegas fantásticos e aperta-se em gargantas impressionantes como nas pedras do Funil, no bairro dos Feixos. As montanhas bordejam quase todo o Camandocaia, do pequeno Córrego da Guardinha ao Jaguarí. As vezes algumas interrupções. Atingem, de quando em quando, altitudes superiores a mil metros. Esses picos, em séculos passados, tiveram grande importância na orientação dos mateiros e, consequentemente na abertura dos primeiros caminhos. Foram marcos de antigas sesmarias, serviram como divisas de municípios, mirantes disputados na Revolução de 1932, balizadores de rumos de povoamentos nascentes. Ao mesmo tempo tornavam-se intransponíveis às tropas carregadas que aprenderam, pouco a pouco, contorná-los, definindo caminhos mais acessíveis e duradouros. Nas encostas menos ingremes dessas montanhas, antes cobertas por embaúvas, peróbas e cabreúvas, já foi cultivado quase tudo: a cana, o feijão, o milho, o café, o algodão, as videiras na década de 1930 e 1940. Dobraram-se, essas terras, sob a ação do elemento humano. A beira dos caminhos nasceram os agrupamentos urbanos. Carapinas exímeos transformaram, com o machado, toras de peróba em madeiramentos surpreendentes, em batentes, em portas, rótulas e janelas. Anônimos arquitetos do barro orientaram os primeiros taipais e os acolhedores beirais. Na verdade, o passado das povoações é uma História acumulada em camadas tão espessas quanto a História do Velho Mundo ou do próprio homem. Se percebemos, nos edifícios remanescentes da cidade arcaica, os velhos beirais, notamos também a presença das pilastras dóricas que remontam a antiga Grécia. Se percebemos na cidade moderna do final do século XIX a presença da luz elétrica constatamos, também, a ordem compósita ou toscana e um certo sabor da Renascença. No costume antigo de encerrar urnas nas soleiras das portas dos edifícios recém inaugurados percebemos, no conteúdo delas, um pouco da História das mentalidades: o desejo de diálogo com o desconhecido, com um futuro inatingível. E esse desejo parece estar presente no homem do século XX que endereçou, às civilizações desconhecidas, uma placa depositada na Lua em 1969 ou, que instalou no espaço um radiotelescópio imenso com o propósito de contactar extra terrestres. E esse, pois o mesmo desejo presente no homem do século XIX que escreveu Viagem à Lua (Júlio Verne e George Mellies), que produziu A Máquina do Tempo (H. G. Wells) e que, além disso, se imaginou objeto arqueológico do futuro numa época em que essa forma de saber se cientifizava. Tudo uma superposição do pensar, do saber e da ação humana. O eterno aprender, o eterno agir; o eterno agir, o eterno aprender. Perante o historiador: esses homens, o rio, o vale, a cidade, a própria região, são mil coisas ao mesmo tempo. Portanto, compreender a região é compreendê-la na sua totalidade e, compreênde-la assim é, primeiramente, não lhe estabelecer fronteiras espaciais. Os limites são estabelecidos segundo a configuração espacial particular de cada um dos fenômenos estudados, o que nos leva ao conceito Braudeliano de uma espacialidade diferencial. Cada fenômeno tem a sua abrangência e, assim, deve ser estudado e delimitado espacialmente. Dessa forma podemos afirmar que a desapropiação da área, no bairro da Bocaina, com a finalidade de instalação da usina geradora de eletricidade para a iluminação pública de Amparo, em 1893, teve uma abrangência específica que não ultrapassou os limites do município. Por outro lado tivemos, sem dúvida, um fenômeno muito mais abrangente quando, em 1882, na estrada que nos ligava à Serra Negra, uma ponte foi tragada pelas águas do rio Camandocaia, deixando sem comunicação o município de Amparo com parte da Província de Minas Gerais. Compreender a região é compreendê-la na sua totalidade e, compreendê-la assim é, também, perceber que todo "conteúdo" é construção, pois assim se define conhecimento histórico. "O real não existe senão enquanto conjunto de versões, ou melhor, de representações." (6). Dessa forma, ao estudarmos a construção do edifício do Lazareto, em 1878, poderíamos, simplesmente, privilegiar o enfoque concernente ao seu partido arquitetônico ou, por outro lado elegermos, separadamente, outros aspectos como: as noções de higiene veiculadas naquele momento histórico, o papel da iniciativa privada na construção daquele edifício público ou, até, a que classes sociais servira aquele hospital. Se pudéssemos acumular todas essas pesquisas sobre o mesmo objeto teríamos, com certeza, um maior conhecimento sobre ele, porém, nunca o esgotaríamos. E não é só isso. Compreender a região é entendê-la através das mais diversas disciplinas, sem colocar limites rigidamente estipulados entre elas. E perceber, isso sim, uma unidade do conhecimento para a qual contribuem Histórias, Políticas, Geografias, Botânicas, Geologias, Filosofias, Sociologias, Antropologias, Matemáticas e Psicologias. Como ignorar a influência das cheias do Camandocaia no desenvolvimento da trama urbana da cidade? Como ignorar a qualidade do solo, a topografia, o clima, a grande imigração italiana ou a migração de escravos quando se estuda a difusão do café na região? Como ignorar as idéias iluministas quando se estuda a cidade racional(7) do final do século XIX? Enfim, como ignorar Jung quando se vê a "CIDADE AZUL" da época da estagnação? Roberto Pastana Teixeira Lima (*) Amparo, abril de 1998. (*) Roberto Pastana Teixeira Lima, é Coordenador do Departamento de Pesquisa e do Centro de Documentação da Faculdade de Ciências e Letras "Plínio Augusto do Amaral", e Doutorando em História - Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas da UNICAMP Notas
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